quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O abismo





Juremir cruzou o jardim até o carro. Uma dessas manhãs de dispersão branca. “Divirta-se no escritório”, acenou da porta a esposa. A esposa pôs no microondas a comida das crianças. As crianças saíram para esperar o ônibus na calçada. O cachorro latia com o sprinkle. O homem da dedetização chegara e, agora, borrifava veneno na grama. 
Após tentativas estéreis, o carro não abriu; o marido voltou para casa. Jovinda, a esposa, inteirou-se do empecilho automotivo. A ulterior impossibilidade de translado de Juremir até o locus empregatício perturbava o seio familiar. Os condôminos em reunião, aclimatados no fundo do quintal, tomavam nota. As crianças voltaram para casa; sem parar, o ônibus havia saído de uma esquina, mas entrado na seguinte. Juremir cruzou o jardim, o carro englutido no lume fosfóreo das sete. A esposa, no silêncio vítreo do condomínio, acenou da porta, “Ligue se apavorado pela fatuidade”. Antes de anoitecer, um carro de família, voltando da tarde regada no clube bancário, colidiria de frente com um sedã na estrada ensolarada, sem sobreviventes. As crianças saíram para esperar, na calçada, o ônibus escolar. Jovinda, a esposa, colocou no microondas o café da manhã das crianças, aquecendo-o outra vez. O controle de pragas borrifava o belo asfalto da rua. O sprinkle cessara e, sobre a grama, uma ausência substituíra o cachorro. Apesar de investidas tediosas contra o carro, a resiliência da porta impeliu Juremir, animicamente debilitado, de volta para casa. O amante da esposa (subia a janela, desistiu) circulava a piscina, parando às vezes para abdominais. Jovinda inteirou-se do empecilho automotivo. Ficava cada vez mais distante, incorpórea, a presença do marido no locus empregatício. Como o ônibus passasse direto, como se dera voltas no quarteirão, as crianças foram para casa. No fundo do quintal, o círculo social de Juremir manifestara apreensão crescente. O marido cruzou o jardim. Impotente, postou-se estático ao lado do carro, fagocitado no cromo difuso da manhã. No banheiro da casa vizinha, uma adolescente magra encolhia-se no piso gelado; um esguicho frio de sêmen respingou-lhe o dorso. No belo asfalto aquecido, Controle de Pragas procurava nuvens de claridade insustentável. Apresentava, assim parecia, sintomas de insolação. A esposa termonebulizou a comida das crianças. Submergiu-a na piscina; copos plásticos boiaram, solipsisticamente, na superfície vítrea, projetando sombras trêmulas na cerâmica muda, sob a vala comum das três e pouco, um azul ilimitado riscado de cabos e postes de alta tensão, zumbindo contra nuvens estáticas. A reunião de condôminos, em pé no jardim, esquivava-se do sprinkle, que tornara a esguichar, concupiscente. O amante da esposa fazia abdominais, músculos oleosos ao sol, folhas secas caídas imóveis sobre o piso de granito morno e uniforme. Jovinda reiterou-se do empecilho automotivo; uma ligação suscitara reprovação à fixidez do marido, cuja presença no expediente já não seria oportuna. As crianças acossavam, sobre a fútil solaridade do asfalto, o homem da dedetização. O ônibus escolar fumegava contra um poste, agora torto na esquina limpa. O café da manhã jazia no fundo da piscina, como um simulacro. O marido cruzou o jardim. Dessa vez, para casa; baldando em abrir a porta da frente, ficara estático na escadaria. O imóvel acompanha cozinha americana. A esposa dirigiu o carro, com as crianças, para dentro da piscina. O amante da esposa fazia abdominais no granito morno, uniforme. Tumultuados, na vacuidade clórica de veranidade muda, boiavam os copos plásticos. O porcelanato era uma opção criativa para o piso. O círculo social do marido examinara o homem da dedetização, caído no acolhedor sumidouro do asfalto, precipitado no abismo dominical. As crianças voltaram para casa. As crianças voltaram para casa. O ônibus se atrasou. Os copos boiavam em clórea solaridade, ao trino do telefone, como uma broca, no bloco de fatuidade emética. A reunião de condomínio fora marcada. O cromo difuso da manhã os acolhia como spray odorizador. A porta pivotante fora uma escolha arejada. A piscina engoliu a esposa. A piscina engoliu o carro. Os vizinhos (os casais, as crianças) equilibravam-se no despenhadeiro ordinário de silêncio e ressaca dominicais. O marido cruzou o jardim. A esposa esquentou o desjejum transiente; o locus empregatício era incorpóreo. O jardim um alheamento, o cachorro exíguo. Do céu, Deus abatia com um rifle passantes nas ruas. O nível de água escalara, a cena submergia, como bosta facsimilar na cerâmica do vaso, antes do refluxo de desencanto. Bom dia.