quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Daniel Francoy com a palavra:


A avenida mais imunda é o início
do que chamo de casa: uma fileira
de terrenos baldios com bichos mortos
apodrecendo entre o mato e as pedras;
torres emulando castelos de princesas
ou coqueiros de néon imitando praias
na entrada de motéis; carcaças de carros;
depósitos de materiais de construção
deixados ao léu; o entardecer
regurgitado por máquinas fumarentas –
a luz crua, escassa, puída
que resseca narizes e gengivas
(...)
Olá, inverno súbito nos estertores
de uma sexta-feira. Faz frio e metal
das placas de trânsito e dos carros estacionados
é o fio de uma espada gelada
(...)
Por vezes
dorme-se se com o coração acariciado
por um sussurro brando, por uma garoa,
e instala-se a suspeita
de uma manhã, de um céu
lavado estendido sobre a infinitude
dos subúrbios calcinados.


daqui e tal

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Spam elegíaco ao leitor encafifado


Pícaro leitor,

Corpúsculo num plano é um livro de textos curtos porém maniprestos ilustrados e autorados impunemente por este humilde, módico, em suma rastejante e infeccioso, vulgar, de 2004 a 2010, entre locações de sonoridade convenientemente escritural - orlas, corredores hostis, madrugadas fosfóreas, quartos insalubres em províncias insulares, ruas estreitas e cubículos, estradas, postos de gasolina e congressos de pompoarismo gnóstico, que pela eficácia militar fulgura como o inquestionável futuro da evolução bélica. Foi impresso em árvores mortas por máquinas violentas e ruidosas, com a habitual sequência de movimentos sexualmente ambíguos dos robôs, numa tarde oleosa de janeiro, em algum ponto dos trópicos, início do século XXI, época de espasmos post-mortem para a gloriosa civilização e o interesse em prognósticos apocalípticos. Você pode comprar aqui (vá para a segunda página do catálogo), e rejubilar-se com o frete digrátis, decapitando um Negresco dentro de um pentagrama em gratidão sacrificial a Liseus, meu único Senhor e a quem ora exibo, num ato de contrita reverência, o pano dos meus bolsos.

D.


(A editora, alguns dias após o lançamento)

domingo, 3 de agosto de 2014

Ontem sonhei que acordava de um sono inquieto, apenas para encontrar, em lugar da minha maçaranduba indócil, Fabrício Carpinejar. Num registro fanho de Rumpelstiltskin, sua cabeça reluzente e túrgida, agora minha infausta glande, produzia um fiozinho contínuo e monótono de queixume autopiedoso, numa sintaxe afetada. Mirei detidamente a anomalia no interior da cueca, até, transido de horror cósmico, saltar em busca de uma tábua de carne na cozinha, e minha tramontina Inox Premium 22''. Alguns minutos de tensão extrema transcorreram, com a minha piroca, ou antes Fabrício Carpinejar, estirado molemente na tábua; a faca, tremulamente empunhada acima. Faltou-me a frieza. Marquei um cirurgião oncologista, que dias depois, tendo-me cutucado o novo e insólito órgão com instrumentos, sob lanternas e lupas, dir-me-ia tratar-se de um tumor peniano raro, em comportamento, bem como aparência, idêntico ao emérito escritor sulista (expressão que não se aplicará com a mesma exatidão a um saco de húmus no Amapá, visto não ser estoutro - o fertilizante natural ora em escrutínio - sulista). Era letal, e afetava diretamente o cérebro, que o portador da enfermidade, cedo ou tarde, explodiria com um revólver, ou contra o estacionamento concretado de um prédio comercial. Minha família foi atualizada; fui mandado, sob o pranto inconsolável de mamãe, e de vovó, para a sala de cirurgia. Acordei dia seguinte; era uma bela manhã. Flores balançavam na janela como pênis normais, e vovó segurava minha mão, sorrindo. "Como está, querido?", perguntou-me; sorrindo de volta, disse-lhe um "bom dia, vovó. Tudo bem" e "como...? como foi o...?". "Seu órgão copulatório está ótimo, querido. Não se preocupe. Estivemos todos conferindo, em turnos revezados". Preocupado, falei: "Meu pênis não é mais o Carpinejar?". "Não, querido. Ainda está envolto em gaze, mas todos vimos embaixo, e está tão diferente de Carpinejar quanto um membro masculino pode diferir de Carpinejar", disse, apertando forte a minha mão, a voz embargada. Eu estava aliviado, e repeti, mentalmente: "minha piroca não é mais o Carpinejar". Alvejou-me o entrecorno uma idéia, como um período de um escritor realmente competente, e, aterrorizado, gaguejei: "Houve... diga que não... houve alteração de...?". "Querido, não permita que similares temores preencham sua cabeça, que, pela vermelhidão, ainda deve latejar", e alisou minha testa. "Da pujança e majestade naturais d'antanho, seu pilão em nada se mostra falto. Enquanto dormia, testemunhamos, família e equipe hospitalar, o erguer-se impávido do mesmo, como um frondoso jequitibá, equino farol em felpuda angra, após clinicamente estimulado por uma enfermeira com interesses multidisciplinares na área da putaria franca". Exultamos, pois que tudo correra bem, e minha pica não era mais um escritor sulista.
Aí, ouvi. Era uma vozinha. Vinha das minhas partes pudendas. Era repelente; era ignomniosa. Entrecortava-se, aos pequenos solavancos amigáveis de pura abjeção. Levantei o lençol hospitalar e, costurada ao tronco do meu minarete wândico, notava-se, satisfeita, a cabeça, convalescentemente alegre, de Serginho Groissman.