quinta-feira, 29 de maio de 2014

sábado, 24 de maio de 2014


Dois excertos de "Ficando longe do fato de já estar meio longe de tudo", de Foster Wallace, que dia desses decidiu se balançar sem as mãos da forma mais popular na Coréia do Norte. Lembram às vezes como a ironia e em particular a auto-ironia, por tabela o senso de ridículo, eram as últimas barreiras impedindo um pentelho standard de resvalar como um poodle eufórico on meth no grande oceano excrementício do narcisismo moral. O fim da ironia libertou do ridículo não só o selfie, simpliciter, como também o selfie moral, atual justificativa a priapus- digo, a priori e universal para qualquer interferência prática na integridade retal alheia, consoante o ilustra a parábola do post anterior. Tradução do nosso grande escritor brasileiro, Daniel Galera, tão perfeitamente intercambiável com Graciliano, João Cabral de Melo, Machado e Campos de Carvalho que, se efetivamente substituído por um deles, nem sua mãe notaria a diferença (deixo para o Luís Fernando, outro monstro sagrado, o desenvolvimento dessa cena repleta de deliciosas ressonâncias absurdas).

I

"O som é ao mesmo tempo humano e desumano o bastante para eriçar os pelos. Dá para ouvir esse suíno em apuros de uma ponta a outra do Pavilhão. Os suinocultores profissionais ignoram o porco, mas nós vamos correndo ver e Acompanhante Nativa começa a falar com uma vozinha aflita de bebê até que eu a mando ficar quieta. Os flancos do porco estão arfando; ele está sentado como um cão, com as patas da frente tremendo, berrando horrendamente. Nem sinal do tratador do porco. Uma pequena placa na gaiola informa que se trata de um suíno da raça Hampshire. Está com problemas respiratórios, é evidente: minha suspeita é que tenha engolido serragem ou excremento. Ou vai ver que simplesmente não atura mais o fedor aqui dentro. Agora as patas dianteiras entortam e ele fica de lado tendo espasmos. Assim que consegue reunir fôlego suficiente, berra. É insuportável, mas nenhum dos agropecuaristas vem saltando por cima das gaiolas para prestar socorro ou algo assim. Acompanhante Nativa e eu estamos literalmente retorcendo as mãos de aflição. Ficamos fazendo barulhinhos plangentes para o porco. Acompanhante Nativa me manda sair atrás de alguém em vez de ficar ali com cara de cu. Sinto um estresse enorme — fedor nauseabundo, compaixão impotente, e além disso estamos atrasados no cronograma: estamos perdendo neste exato momento os Bodes Pigmeus Júnior, o Concurso Filatélico no Prédio de Exposições, uma Exposição de Cães da 4-H num lugar chamado Clube do Mickey D, as Semifinais do Campeonato de Queda de Braço do Meio-Oeste no Palco Lincoln, um Seminário de Acampamento para Mulheres e as primeiras etapas do Torneio de Fundição Rápida lá no misterioso Mundo da Preservação. Uma tratadora de suínos acorda sua porca a chutes para poder acrescentar serragem na gaiola; Acompanhante Nativa produz um ruído de angústia. Fica claro que há exatos dois defensores dos Direitos dos Animais nesse Pavilhão Suíno. Ambos podemos observar certa perícia carrancuda e insensível na conduta dos agropecuaristas aqui presentes. Um exemplo acabado da alienação-espiritual-da-terra-enquanto-fábrica, postulo. Mas por que se dar ao trabalho de criar e treinar e cuidar de um animal especial e trazê-lo sei lá de onde até a Feira Estadual de Illinois se você não está nem aí para ele?

Então me ocorre que comi bacon ontem e que neste exato momento estou louco pelo meu primeiro cachorro-quente empanado. Estou aqui retorcendo as mãos por causa de um porco em apuros e em seguida meterei um cachorro-quente empanado goela abaixo. Isso está ligado à minha relutância em ir correndo até um suinocultor e exigir que pratique ressuscitamento de emergência com esse Hampshire agonizante. Meio que posso prever o jeito com que o fazendeiro iria olhar para mim.

Não que seja profundo, mas me impressiona, em meio aos berros e resfôlegos do porco, o fato de que esses agropecuaristas não enxergam seus animais como bichos de estimação ou amigos. Apenas atuam no agronegócio do peso e da carne. Estão desconectados até mesmo aqui na Feira, nesta ocasião autoconscientemente Especial de conexão. E por que não, talvez? — mesmo na Feira, seus produtos continuam a babar, feder, ingerir os próprios excrementos e berrar, e o trabalho continua sem parar. Posso imaginar o que os agropecuaristas pensam de nós enquanto falamos carinhosamente com os suínos: nós, Visitantes da Feira, não precisamos lidar com a tarefa de criar e alimentar nossa carne; nossa carne simplesmente se materializa na banquinha de cachorro-quente empanado, permitindo que separemos nossos apetites saudáveis de pelos, berros e olhos revirados. Nós, turistas, podemos nos dar ao luxo de cultivar nossos sentimentos ternos de defensores dos Direitos dos Animais com nossas panças cheias de bacon. Não sei quão aguçado é o senso de ironia desses fazendeiros, mas o meu foi afiado na Costa Oeste e me sinto meio que um panaca no Pavilhão Suíno".

II

“Você ouviu aquele comentário que o Rei do Zíper fez?”, digo. Ela pôs a mão no meu cotovelo e está me ajudando a subir pela grama escorregadia do morro. “Detectou algo meio sexualmente assediante rolando nesse exercício perverso?”
“Ah mas que porra é essa Lesma foi divertido.” (Ignorem o apelido.) “O fiadaputa fez a cabine girar dezoito vezes.”
“Estavam olhando por baixo do seu vestido. Acho que você não podia ver. Penduraram você de cabeça pra baixo numa altura enorme, fizeram seu vestido cair e te comeram com os olhos. Protegeram a vista do sol e trocaram comentários. Vi tudo.”
“Ah, que porra é essa.”
Escorrego um pouco e ela pega no meu braço. “Então isso não te chateia? Como uma cidadã do Meio-Oeste, você não está chateada? Ou você simplesmente não teve uma percepção rigorosa do que estava acontecendo ali?”
“Independente de eu ter reparado ou não, por que tem que ser um problema meu? Então é assim, já que existem babacas no mundo eu não posso andar n’O Zíper? Nunca vou poder girar? Talvez seja melhor eu nunca ir à piscina ou nunca me arrumar pra sair por medo dos babacas?” Ela continuava corada.
“É que fico curioso pra saber, então, o que seria necessário ali pra te convencer a apresentar alguma espécie de queixa à gerência da Feira.”
“Você é inocente pra caralho, Lesma”, ela diz. (O apelido é uma longa história; ignorem.) “Babacas não passam de babacas. De que adianta eu ficar braba e aborrecida? Só vai arruinar minha diversão.” Ela fica com a mão no meu cotovelo esse tempo todo — essa ladeira é sacana.
“Isso é potencialmente relevante”, digo. “Pode ser exatamente o tipo de contraste político-sexual regional que interessa à revista classuda da Costa Leste. O valor essencial que conforma uma espécie de estoicismo político-sexual voluntário da sua parte é uma compreensão da diversão prototípica do Meio Oeste —”
“Me compra uns torresmos, seu bosta.”
“— enquanto na Costa Leste a indignação político-sexual é a diversão. Em Nova York, uma mulher que tivesse sido pendurada de cabeça para baixo e comida com os olhos reuniria um monte de outras mulheres e haveria um frenesi de indignação político-sexual. Elas confrontariam o cara que comeu a outra com os olhos. Ajuizariam uma ação. A gerência se veria envolvida num litígio custoso — violação do direito de uma mulher à diversão livre de assédio. Estou falando sério. Para as mulheres, a diversão pessoal e a diversão política se misturam em algum ponto ao leste de Cleveland.”
Acompanhante Nativa mata um mosquito sem nem olhar para o bicho. “E naquelas bandas todas tomam Prozac e enfiam o dedo na goela, também. Deviam tentar simplesmente subir, girar e ignorar os babacas, dizendo Eles que se fodam. É o máximo que se pode fazer a respeito de babacas.”
“Isso pode ser crucial.”




"Duas mulheres sofreram um grave acidente por causa de uma selfie vídeo ao volante no Irã". Eu amo o século XXI.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Excerto do Corpúsculo num Plano. Feliz Wesak.

'(...) o Instituto Internacional de Pesos e Medidas cogitou definir o metro, essa fantástica unidade de medida, como o comprimento de sua queda ao tropeçar bêbado diariamente no batente do bar às 3:25 a.m., quando cambaleia de volta para casa. Diz-me que é um ex-cirurgião-dentista viúvo; que sua esposa, tragada pelo turbilhão irresistível do sedentarismo e abuso nutricional pós-marital, dilatara até implodir e se tornar um buraco negro, consumindo em seu avassalador vórtex gravitacional a casa e toda a vizinhança; carros, árvores, vacas, crianças, ruas, prédios – dela nada escapara. “Meu amigo, onde você enxerga um fim, eu vejo um recomeço; uma nova oportunidade”, disse-lhe. “Que quer dizer?”. “Você já tentou falar com ela depois do incidente?”. “Não... eu... Eu não sei bem como lidar com corpúsculos de convergência espaço-temporal...”. “Bem, você podia tentar reatar com ela. Só precisa saber falar com jeito. Fale com esse cara, ele sabe tudo sobre buracos negros”. Escrevi o nome ‘Stephen Hawking’ num pedaço de papel. “Obrigado. Como posso agradecer? Deixe-me pagar uma bebida”. “Sim. Tudo bem. Ando precisando de algo melhor que sangue em minhas veias”. Sem conversar seguimos, passo a passo, entre as formigas, vendo as almas convalescentes das enfermeiras prostradas e incapazes de erguer o corpo lasso. Seriam seus bustos siliconados com um novo metal, de massa atômica superior?, ocorria-me. Ouvindo esses ruídos distantes; indiferentes aos chamados suplicantes, o chão trepidava; o ruído e o fluxo distante; as silhuetas fracionadas de fantasmas anônimos acelerando até a colisão, em um sonho indistinto, buzinando espectralmente além da membrana da existência.

Bebemos a noite inteira, numa taverna antagônica à vida baseada em carbono, onde psicopedagogas ovulantes e talk-show hosts intuicionistas browerianos encontravam-se a cada solstício de inverno para o imemoral ritual de cortejo centrado no bukkake, esse fascinante legado da punição medieval que instancia a relação afetiva do swing com cumshot, R(x,y) = “x ejacula na face de y”, numa função constante “x ejacula na face de c”, tal que x é todo concidadão motumbo produtor de mingau e c é uma meretriz dissoluta. O cumshot monogâmico pode ser destarte interpretado como um bukkake com domínio unitário e, similarmente, cumshots com parceiros monogâmicos distintos, no transcurso da vida afetiva de uma potrinha sapeca standard, configuram um bukkake serial. Às 3:25 saímos e ele tropeçou, com agressiva pontualidade, aquele fregeano magnificente. Entoamos velhos cânticos gaélicos, sob o céu nas ruas estreitas, como os sucessos “O que você fez com a minha aspirina, Jacó?”, “Implicações forenses da auto-inserção uretral como mesura alternativa” , “Aspectos psico-sociais da insônia entre divorciados”, “Seus pêlos pubianos danificaram o meu barbeador elétrico, cortesã licenciosa” e “A remoção do meu testículo esquerdo trouxe danos à minha vida conjugal”. Aproximadamente 100 bilhões de estrelas eram o nosso público aquela noite fria e contigencial, naquela instanciação randômica de Praga. Esgueiravam-se pela cidade os Hlodavci, Jejichž Záliba Barbarství Není a Priori Vyloučeno (Roedores cuja Inclinação à Selvageria Não É, a Priori, Inconcebível), assessores de imprensa descontrolados sondando a área como implacáveis lobos de Gutenberg, farejando o medo no rastro dos Domov a Zničení, os clubbers agoráfobos do subúrbio. Por um momento, compreendi a mania de perseguição de um escritor chamado Franz Kafka. E, quando já fraquejávamos, perdidos numa encruzilhada apenas parcamente iluminada por uma lâmpada fraca que falhava, uma pequena fada madrinha apareceu e, com um passe de mágica, nos imunizou contra a varíola.

Eu me tornei mais e mais consciente dos efeitos nocivos de certas comidas industrializadas. Do excesso de conservantes; do excesso de substâncias cardiopáticas e cancerígenas. E agora, escolhendo na prateleira do supermercado a combinação certa de produtos que ocasionem o menor risco à minha próstata, sou preenchido por essa sensação de completude; de eternidade. Era um novo portal para a transcendência. Eu alcancei o nirvana. À noite, recebo uma ligação de Buda. Ele me parabeniza e me convida para a festa de lançamento do seu romance sobre sprays bronzeadores, mas sua mansão é invadida pela máfia siciliana e ele é fuzilado. Sua cabeça, atirada dentro de um vulcão, em rede nacional; seu corpo, doado para uma conhecida fábrica de biscoitos. Sua alma, dissolvida em um barril de fezes, suco gástrico, ácido butenodióico, gasolina, escorrência menstrual, ketchup e muco. Em vão tentara esquecer a convoluta solidão do seu peristaltismo retal. Minha clareza uma nuvem de estática, uma cintilação na neblina que turva a várzea'