terça-feira, 20 de março de 2012

sábado, 17 de março de 2012

À noite, vou jantar na praça de convivência, no centro da cidade. Saindo de lá, compro algo para beber numa loja de conveniência. Sento num banco do estacionamento. Fico bebendo e assistindo ao vaivém no posto de gasolina.
Quando chego ao terminal, o lugar está quase deserto. Algumas poucas figuras espectrais aguardam os últimos ônibus da noite, sentadas em bancos de cimento, recostadas às paredes fuliginosas, sob a luz opaca das lâmpadas. Creio reconhecer vagamente um ou outro rosto – a fauna típica; logo os esquecerei. Também sou um desses rostos vagamente reconhecíveis, me ocorre. A condição endêmica de voyeur, conatural à civilização; como ser um fantasma, em certo sentido, um vagar fastidioso entre figuras incomunicáveis, sobre as quais não se tem real curiosidade. Passo um bom tempo esperando o ônibus, adormecendo às vezes. Sou acordado pelo sujeito do guichê. Passa da uma hora da madrugada; ele me informa que o terminal foi fechado. De fato, observo, não há ninguém ali. Saio, ainda bêbado, e pego um táxi.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ele assentiu e tornou a ver TV.
O tsunami se aproximava, contraposto a um céu coagulado.
Sentou num banco, oculto na penumbra da caixa. Resolvi deixá-lo em paz e caminhei pela beira da praia, que retrocedera para antes do bar. Se a maré aumentasse mais, a água dissolveria a duna, pensei, bebendo um gole. Basta que um fio de água passe. A corrente aumenta e aumenta e tudo se desfaz. Engraçado como as coisas desmancham. Faz pensar que o Universo é uma espécie de pastilha efervescente.
Era bom pisar na areia morna quando o resto era frio. Isaura dançava no meu campo de visão como uma borboleta bêbada. Imaginei-a nua. Sumi na direção dela e do sol.

- Você foi embora e perdeu-se no mar - disse, sentando ao lado dela e arfando.

Ela estava bonita e um pouco molhada. Refletia os fiapos de sol e seus pêlos eriçados formavam milhares de brotoejas na pele. O vento soprava forte. Lá longe, o tsunami bem mais próximo e o bar meio imerso na água. Isaura nada disse. Ficamos ali, eu bebendo e ela se perdendo no mar, que me acalmava, apesar de revolto. Eu estava gostando das cores desmaiadas, do estertor, das pernas de Isaura e tudo o mais. O fim de tarde me desmanchava devagar. Terminei a bebida, levantei e joguei a garrafa no mar. Fui caminhar nas dunas.