quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Nota 4. Acerca das hienas.

A ficção coletiva é o único idioma do jogo humano; assim, a autonegação é não só parte do jogo, mas sua única linguagem. A maioria usará o idioma referido, embora poucos se encaixem ergonomicamente no jogo. Os que falam tal idioma não falam realmente - o jogo está falando. O realismo (bleakness), o rigor e a resignação* ao jogo [e não à sua negação, isto é, à sua regra fundamental interna] são a forma mais abrangente de retaliação. Não conduz à liberdade, mas é ainda um espernear; não há outras possibilidades além desta. O jogo deverá vencer necessariamente - é impossível, para uma peça, subjugar o jogo. "Vencer" só é (infimamente) possível dentro das regras do jogo; isto é, abicando da retaliação e adotando seu idioma. Dada esta possibilidade remota de vitória, todos apostarão na mesma, e quase todos perderão. Terão atravessado a existência como voyeurs, mimetizando o melhor possível, mediante caricaturas disponíveis (cômicas e grotescas), a língua e trejeitos da minoria ergonômica ao jogo - um pouco como hienas aguardando a carniça.

* Mais preciso seria dizer "meta-resignação", ou "resignação de segunda ordem".