segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia gordo, a broca e o píer



Dia gordo
(26/07/2010)


Nos quintais do subúrbio
o vazio crepuscular
espiralando,
envolve as flores;
esvai por hábito a tarde postiça.

Brilha a voz ensolarada dos grupos
em derrisão;
O corpo castrado encena dócil,
nos estabelecimentos comerciais,
seu movimento;
mimetiza humanidade.

Pétalas nas calçadas, não obstante;
comprimidas pela pressão,
quando costuma ser ouvida,
- pelo frio que apodrece as roupas
dentro do armário -,
fedendo a claustro, a voz
na loja de conveniência;
Hálito mau.
Fedendo à vileza pornográfica
da solidão, e a bolor de parede.
(Prateleiras de produtos
e a nota fiscal impressa).

À noite o céu é opaco
o existir cambaleia
com os fantasmas.
As alamedas estão cheias
de xoxotas inchadas
fragrantes.
Quisera viver iluminado,
acima da vida; como o nada
quisera, enfim, ser o vácuo.

O som tranquilo das árvores
do bairro
sob o vento gelado da noite;
dos postes zumbindo, quando passo;
distante rumor de máquinas.




O lugar mais luminoso
(14/02/2009)

No lugar mais claro,
fizeram a cidade.
Se martelos são ouvidos de manhã, batendo;
Se registros são guardados, à noite,
Os mudos se movem
- para alimentar as hienas.
1:45 da madrugada.
As cabeças miram a lâmpada
que queima moscas e cadastros;
emudece testemunhas.
Babam com anedotas
Agradecem à broca por mais uma cidade


Píer
(03/02/2009)

Os sinos estão tocando.
Estamos de partida.
Nos ancoradouros há rumor
Os obstetras e vigaristas vigiam, clinicamente;
Esses caminhos estarão interditados pela manhã.
Aos que perambulam sonolentos, perto das igrejas,
ainda não; voltem para a cama. São as circunstâncias;
Um olho atento,
ainda pode prosperar e respirar; operar, em certo sentido.
Conatural à perda, progressiva, funcional
está o restante (mas não pode ser sustentado).

Não obstante, sequestrados pela enseada, sob a luz póstuma do sol, difusa na neblina: é onde deitamos para atirar as crianças
às vagas. Que lhes aleite um falso redemoinho.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Impressões do interior às 6






Minha pressão está baixa quando acordo, de madrugada; sinto um leve enjôo. Engulo um pouco de sal na cozinha. Encontro na geladeira uma pizza de supermercado, ainda crua, e esquento um pedaço no microondas; faço tudo numa posição meio ridícula, semi-agachada. Ora, os doentes nada podem fazer, senão acolher o ridículo. O presunto está um pouco apodrecido, mas a pizza me revigora instantaneamente, e logo estou satisfeito por reaver minha normalidade, que ainda ontem me pesava. Fico um tempo sentado à mesa, vendo os restos de pizza no prato. A contemplação: a mais alta aspiração humana, segundo os antigos. Ouço risadas femininas lá fora, vindas da rua. Chegam atravessadas de uma baixeza familiar; ameaçadora, de certa forma. Que fazer, a antecipação da violência dos semelhantes é uma invariante: muros, portões, patrulhas noturnas; não há casa no bairro sem cerca eletrificada. Certamente, haveria formas menos ambíguas de expressar hospitalidade. O silêncio recai, exceto por distantes, oníricos rumores de motocicletas, parecendo orbitar uma zona remota. Tomo uma xícara de café, fico lendo um livro de Kant na sala; não que me interesse por filosofia, mas a aridez densa e gratuita do estilo do velho defunto cativa, preciso admitir. No fundo, era só um entertainer; a Abelhinha Diligente construindo seu castelinho de niilismo, repetindo que são tijolos concretos. Gostaria de vê-lo na banheira do Gugu. O livro logo enche o saco, e ligo a TV no mute. É reconfortante encontrar a programação triste, descolorida do horário: pastores, Abshaper, leilão de gado, Beyoncé, por aí vai. A cozinha está no escuro, e os móveis estalam. As frestas da casa exalam o ar gelado exterior. Tenho sorte de viver nessa época.
Quando acordo de madrugada, a solidão é, de modo geral, satisfatória. Os objetos são acolhedores; presenças humanas fragmentariam a bolha. Artrópodes são o grau máximo de complexidade tolerável. Além da simplicidade das coisas inorgânicas, como as paredes que nos defendem de outros como nós, o que acalma é se encontrar à parte do jogo da vida. Com toda a sua tendência à aglutinação hierárquica, estrutural, mesmo o jogo da humanidade apresenta falhas; lacunas esporádicas na rede ubíqua de conexões sociais, onde experimentamos existir fora da ebulição antrópica, em auto-suficiência. Você pode estar numa rodoviária, além do expediente normal; num clube deserto; no estacionamento de um drive-in; tarde da noite, numa estação entre São Paulo e Rio de Janeiro, insulada por pradarias sem fim. É como estar morto. A sensação é de certo alívio, deve-se admitir. Enfim, não é tão grave. O dia começa a amanhecer no interior.
Decido caminhar pelo bairro; aproveitar o sol da manhã no subúrbio. Vou andando pela praça defronte à minha casa. Acácias, vovôs e vovós fazendo cooper; nada de pichações, só nomes, emoticons e rituais pubescentes ancestrais talhados nos espaldares, a lápis ou a chave. A marca inconfundível do imperioso chamado das gônadas. Uma velha familiar vem correndo em minha direção, com legging e colant de malha justa. Mudo de caminho, em direção ao playground. Fico sentado num dos bancos, observando os brinquedos, depredados e descascando com a ferrugem; a doença dos playgrounds. A desorganização do mundo, penso, sempre penetrando nossa organização por trás. Contra a entropia universal não há supositório. A luz morna e reconfortante cai sobre os pinheiros, contrapostos ao céu, projetando silhuetas no muro do hospital – um Pronto Socorro que ladeia a praça. A brisa fria faz um contraponto agradável; nenhum conflito entre o calor e o frio. Vejo as arquibancadas de cimento, que circundam um campo de futebol – também concretado. Caminho até lá e, sentado, fico olhando o campo vazio. O sol reaquece a superfície plana, redimindo, lentamente, o frio acumulado à noite. Sinto vontade de descer os degraus e tocar o cimento. Copos descartáveis no gramado; resquícios de algo que acabou. No chão das cidades há sempre o fim de alguma coisa, nunca o começo. Um gemido angustiado vem do hospital – o verdadeiro circo. Um sujeito calvo me observa, ostentando uma bela pança esferóide, repleta de toxinas cardiopáticas; tem seus 50 anos, já bastante grisalho; faz alguns abdominais. Esticado, seu duodeno deve circundar a terra. “É”, digo, num volume audível, “também estou aqui fugindo da morte e decrepitude, vovô”. Doentes, disformes, miseráveis e decrépitos – são os verdadeiros clowns. Não que me sinta jovem; devo mesmo ser menos saudável que ele. Definitivamente, não me sinto saudável. Um sintoma, é claro, do excesso de informação: décadas de educação científica, leitura dominical sobre tumores, toxinas alimentares e prolongamento da juventude, de animações ilustrativas em 3D sobre processos degenerativos. Tememos uma morte dolorosa antes dos 35. Talvez câncer no cu, ou no pau; talvez fístula no cérebro ou melanoma. Temo, numa base diária, perder minha benga, ou meus testículos. Concluo que é melhor sair da praça, a zona dos leprosos; a rica fauna matinal de panças e bundas flácidas, menopáusicas e semicomatosas em babylooks, com ardentes detalhes colados, só pode instilar idéias mórbidas ao frescor do amanhecer. É mesmo terrível, quando a velhice chega em leggings. Deambulo pelas ruas intersticiais do bairro, cujas ramificações inelutavelmente convergem para a avenida arterial. As sombras das casas deitam sobre as alamedas de paralelepípedo; cobrem as calçadas frias, salpicadas de folhas, galhos e lixo. Quanto mais se adentra, quanto mais distante se está da avenida, mais obliterados, sujos, anacrônicos são os blocos. Pouco ou nenhum homo sapiens; o mundo parece ser seu, às vezes. Não que o exílio seja sustentável por muito tempo, mas nada é; o homem se vê, ao longo da vida, preso a uma série de arroubos e forçosas, subsequentes recaídas. O quadro geral é fatalmente burlesco. Paro em frente a um longo muro branco, que anela todo um quarteirão, e fico me aquecendo ao sol. Sem placas ou quaisquer indícios da natureza do lugar, observo. O mato brota desesperadamente, entre as pedras da calçada, vergando-a. Uma velha de uns 87 anos, num vestido cor-de-rosa, surge numa esquina torpe, dando para uma rua de barro com casas disformes, sem reboco ou pintura. Se apóia no muro, não sem verdadeira aflição. A gravidade é, para ela, imensamente hostil. Já a vi antes, por volta desse horário. Fauna típica. Olha para mim, com a expressão usual de confusão desolada dos mais velhos. Um animal vencido e inútil, mas ainda se aferroa à vida, como às paredes. Tanta degeneração tem um carisma patente, sem reservas; nos jovens, o carisma vem acompanhado de ressentimento e ódio tácito. Já a proximidade da morte é sempre simpática, ao tornar o homem socialmente inócuo; menos humano, de certa forma. Notadamente, nossa natureza misantrópica só ama com pureza aquilo que tende ao inumano, como Deus. Vejo, contraposta ao céu, a caixa d’água central despontar acima das casas e prédios baixos de construtoras, que parecem copular e proliferar da noite para o dia, com seus galpões vazios replicantes, como barrigas de barro seco, onde descansam vigas de concreto armado, carros de mão, cercas enroladas e caminhões arruinados. O céu brilha um azul límpido sem fim, como um convite. Caminho ao longo do muro, procurando alguma placa, até encontrar um portão de metal gradeado: “Loj. Maç. Josué Ferreira”. Lá dentro, um longo terraço vazio com uma piscina circular e palmeiras. Sugerem belas cenas de crianças se divertindo aos domingos. É quase possível ouvi-las; o som dos corpos pulando na água. Fico bastante tempo recostado ali. Uma putinha jovial, gordinha de uns 28 anos, vem andando em trajes esportivos, pela calçada onde me encontro; me vê espiar pelo portão. Não é atraente, mas pela adolescência deve ter angariado até bastante rola. Encontrando-se agora em processo de frenético abarangamento, vê-se constrangida a caminhar antes das 6, a hora dos enjeitados. Seu atual prazer em viver encontra-se, estimo, em evacuar. Talvez tema a mim, penso; uma figura estranha no bairro ainda vazio. Decido caminhar em sua direção. Encontrando meus olhos por um momento, ela – como se fosse parar – diminui o passo e, para disfarçar, continua. Mirando seu rosto, prossigo, até nos cruzarmos. Então, dou a volta e caminho na mesma direção. A pobre gordona, olhando para trás, vai acelerando gradualmente os passos; as ancas oscilam, gelatinosas, numa serenidade pendular. Imagino minhas mãos postas na banha gelada, sedenta de afeto. Deve julgar que merece ternura, prazer; mas o jogo não imita a estrutura das aspirações humanas. Ela, somos forçados a dizê-lo, não merece realmente qualquer ternura. A coisa continua por alguns minutos. Afinal, um sujeito franzino e estranho emerge numa esquina; o barangão passa a segui-lo, enxergando nele um lume de esperança; o símbolo mesmo da segurança civilizada. Ora, foi belo enquanto durou. Deixo-os e tomo uma rua estreita e depauperada, inconsistente com os blocos de classe média contíguos. Tenho a impressão de já ter estado nessa rua, uns 20 anos atrás. A carcaça completamente fodida, enferrujada e despedaçada de um Chevette jaz num canto da ruela de barro, provavelmente desde os 70. Um homem velho chapinha o esgoto e me percebo meio perdido. Um pássaro pegando sol num fio elétrico. Volto e vou andando a esmo entre os blocos. À medida que me entranho nesses quarteirões, o tempo fica cada vez mais fragmentário; partes dos 80 interceptam partes dos 90, dos 90 com os 70 etc. Tampas erodidas de Grapette, embalagens apagadas de 7 Belo; até uma de Chicletes Mini da ADAM’s; tudo banhado pela mesma luz branda, condolente, remissiva da manhã. Os dejetos da vida normal se espalham pelo chão, como um tipo de subconsciente da civilização, sugerindo conexões estranhas, características de sonho. Entre o capim, embalagens de Toddynho numa vala a céu aberto, lembrando crianças; longneck’s quebradas, provavelmente por playboys do subúrbio durante essa Copa; restos de gaze, garrafas de lubrificante de motor, um pedal de bicicleta, panfletos de imobiliárias e seitas, páginas de revistas. Há uma camada fossilizada, um mundo paleontológico de dejetos da infância no subsolo das cidades; nas ruas e quintais. Vou seguindo a caixa d’água como referência; sua efígie ergue-se acima do bairro como uma anomalia, um monstro de concreto.
Chego à avenida, e caminho em direção a um posto de gasolina; o cenário é um pouco mais aberto. Algum carro passa, aqui e ali, prenunciando a ebulição das 7:15. Me sinto desanimar; o mundo começa a se mostrar cansativo, com seus blocos empoeirados, suas pragas de pardais. Não há muito que se ver a partir daqui; a manhã perde, gradualmente, seu frescor. Paro no posto e fico sem idéias. Uma matilha de vira-latas descansa ao sol, após uma noite de violência e cópula. A inflorescência do setor terciário jaz latente, amontoada em cubos fuliginosos, aguardando a enxurrada de pessoas que não conseguem, sozinhas, subjugar o mundo externo – precisam daquela mãozinha para viver. Logotipos opacos, exibindo mascotes disformes, de uma euforia inexplicável. Um Corcel parado ao lado das bombas de combustível; o motorista conversa com o frentista. O primeiro me é familiar, da infância. Eram sempre os mesmos rostos nos clubes. Parece ter completado a evolução para o homem médio alcoólatra, como o indicam a pança e o boné de partidos locais. Nas cidades interioranas, ante o tédio tacanho e depressão subseqüente, o homem razoável não hesita: automedicação alcoólica. É um estilo de vida relativamente feliz, devemos admiti-lo, e os divórcios são mais raros onde não há clubes noturnos. Não registro muito do percurso para casa. Palmeiras, postes, pardais, câmeras de vigilância nos muros, fogueiras de São João apagadas. A vida começando a refluir.
Para ser honesto, estou um pouco enfadado, saturado das ninharias demandadas por uma vida normal. Algumas décadas bastam para tanto. Onde encontrar iniciativa para superar os pequenos percalços, as pequenas empreitadas requeridas pela vida? As dores de dente, os tumores de próstata; os riscos de amputação, ou de derrame, de seguir inutilizado e emasculado por décadas, tendo sua merda lavada pela sua mãe outra vez. O que fazer ao perder a carteira de identidade; onde encontrar sentido em renová-la, a força para ultrapassar pequenas odisséias burocráticas? É preciso algum heroísmo grego para isso. Não tenho dinheiro, percebo com nitidez a gratuidade de meus planos juvenis, e toda a extensão das minhas limitações. O que parecia ter importância inegável – eventuais ideais artísticos, filosóficos, talvez uma auto-imagem promissora – logo se mostra, com clareza indiscutível, insignificante e inútil. A quem ainda impressionamos, quando atingimos esse ponto da vida? Sou um homem medíocre, sem estratégias ou possibilidades. Não tenho pretextos, ou iniciativa, para mover os mecanismos necessários, com suas intermináveis engrenagens institucionais, emergindo das obsessões biológicas do mundo, como uma ostra hipertrofiada, que supura da carapaça.
Vejo um velho caipira numa carroça, entoando algo repetitivo, enquanto chicoteia um jumento. A carroça crepita sob o tranco dos paralelepípedos. Miro diretamente o sol; os olhos sentem a dor característica. Mais tarde, a luz será um jorro hostil vergastando os trópicos; destruindo e dizimando com radiação a vida – ou, para complicar, fazendo-a persistir. É particularmente incisivo no interior, onde, sem motivo aparente, fui um dia expelido do tabacão da minha mãe; e onde o céu é um pouco como uma mente amnésica; uma obliteração. Abaixo e à frente, estendem-se os mecanismos da natureza, com suas camadas pesadas, filigranadas e despropositadas.