sábado, 20 de novembro de 2010

Cíclades

Whore

Rua estreita & Criança

Men's best

Mercado

Outros (título)

Praça perto de casa

Outros II (Ego issues)

Vizinhança à noite

Outros III

Caso se sinta esgotado, durma um pouco no saguão


Cíclades (variação)

Pork processing facility

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Várzea

Pus a nova música aqui. Você vai gostar de saber que consta de guitarra, violão e baixo. Soa familiar?

domingo, 26 de setembro de 2010

Num trecho do Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, o superior de Montag atira livros numa pilha, enquanto diz algo nessa linha: "Claro que eles (os autores) começam a escrever com boas intenções. Mas após as primeiras experiências, é vaidade". É difícil não simpatizar com o chefe de Montag e suas razões, claras como ouro, para extinguir a cultura e a memória humana. Entretanto, me ocorre, são os autores, não o leitores, os verdadeiros otários na barganha artística; os verdadeiros tapeados. Um autor aprende a contornar certas indulgências, na medida em que estas o impedem de registrar, em seu livrinho, aquelas sarnas secretas e cumulativas, socialmente incomunicáveis, que não cessarão de coçar. Nesse sentido, a literatura é como um supositório para o alívio sintomático da oxiurose; serve, em essência, para calar pequenos vermes solipsistas germinados na ambivalência do espírito do homem, o proverbial misantropo semi-sincero que, alas, precisa se enturmar ou trumbicar, consoante o estabelecido por Chacrinha. Nesse cenário, a vaidade ordinária dos autores, embora em geral hiperbólica à dimensão do grotesco, não costuma interferir na ambição estética maior de uma obra - resultante de uma vaidade proporcionalmente maior -, infligindo, em consequência, um mal menor ao leitor, que deve receber apenas o produto final, limpo e justo. Um fátuo advil gotas para seu próprio solipsismo, sua própria oxiurose. Por outro lado, o autor deverá lidar com a culpa, multi-espelhada, do narcisismo, não raro sendo a mesma uma encenação narcisística, alimentando ciclos mise en abyme de auto-acusação e megalomania; um chiqueiro moral é o que temos aqui, rapazes. Ver a própria alma nunca foi, é notório, para os fracos de estômago. Finalmente, esse peristaltismo de frustrações inamovíveis, auto-obcecadas e auto-depreciativas redunda inútil: para o autor, nenhuma de suas mensagens em garrafas, ardentemente expelidas, será efetivamente respondida; seu solipsismo apenas aumenta frente à futilidade da comunicação, o ridículo balbucio sisífico, tomando consciência de si mesmo, à medida em que é rigorosamente registrado, e cada vez mais clara fica sua extensão e seu inescapável.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010



Células de Bénard: corpos hexagonais produzidos pelo aquecimento de meios viscosos; óleos, por exemplo. O aspecto ordenado surge aleatoriamente, como um caminho de menor resistência para dissipação da entropia. Prigogine defende que o fenômeno emerge em qualquer sistema desequilibrado, dada a tendência termodinâmica geral à dissolução de tudo num caos homogêneo, como a estática na TV. O insight subjacente que guarda um aspecto de terror, embora não seja exatamente novo, é o seguinte: a aparência de ordem - e a vida, em particular - não é mais que um atalho termodinâmico, acessório à dissolução da variedade do mundo numa pasta inumana de tédio. Ora, nunca permita que lhe digam, prezado leitor, que a sua existência, com suas frustrações, seu empenho diário, suas alegrias modestas, seus desvios sexuais embaraçosos e suas ambições de ascenção social, é inteiramente destituída de finalidade.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dois textos que escrevi estão publicados nessa revista. Não tema, há figuras públicas. Assim, você pode ler sem aquela desconfortável suspeita de estar perdendo seu tempo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Livro para download




A primeira edição do meu livro, Corpúsculo num plano - e como adquiri imunidade à varíola, pode ser baixada aqui, em pdf. Há vários textos novos ou reescritos. Segue a lista:

Corpúsculos
(2008-2010)

Impressões do interior às 6
Corpúsculo num plano
Fragmentos
Um conto de cidade alguma
Juventude - I
O Gabinete do Doutor Beiersdorf
Formigas histéricas
Nota estilística

Como ajustei minha vida social no purgatório
(2006-2007)

Travessuras exóticas com o pequeno Lama
Lipoaspire o superego
Reencontrando amigos com 21 cromossomos
Está ouvindo, híbrido de réptil e feto humano?
Como adquiri imunidade à varíola
Técnicas de hidroponia
O dolicocéfalo em seu peito
Pós-Doc em Diplomacia Solipsista
Ereção fatal
Como adquiri imunidade à varíola II

Gooseneck Hollow
(2001-2005)

Ruído
Gigante que esmaga relógios
Sono
Siegfried

Excerto






Nudge nudge, leite fresco natural. A aclamada atuação desconstrói personagens cativantes para retratar em haikus a frágil a beleza wabisabi da síndrome do túbulo carpal, quando a voz crepuscular ressoa “me horny!”, um legado indelével na história do pensamento ocidental – e ela se casou?! nem fodendo bróder, você precisa vir neste momento, porque, cara, você sabe, o síndico acaba de morrer ao respirar compulsivamente o ar das montanhas; exatamente quando Ahura Mazda o deus Wireless vocalizou das nuvens seu logos, what’s ashakin’ faggots?, e apaixonado por uma réplica mecatrônica de Julie Andrews, aprontava todo tipo de confusões – aquele taumaturgo safado estava, naturalmente, jogando a velha lábia do universo enquanto migué cosmogônico e meubagocêntrico para minha governanta de ascendência latina, Gislaine, e entretanto a baixa intervencionista no coletê rapidamente conduziu o continente ao holocausto gástrico – ele sabe que odeio estampas verdes, e eu disse por que você não vai com ela ao açougue às 3, a filha está na faculdade por mau uso abuso ou armazenagem inadequada de artesanato aborígine e o mais novo é alcoólatra keynesiano, ninguém senão o grande compositor serialista que morreu ontem ao confundir mostarda com nitroglicerina legaria suas ecojóias cherokees, tão abnegadamente, donde que não poderão ser responsabilizados por danos diretos ou incidentais enquanto forem acusados de preconceito respectivo à relação homossexual entre aqueles oceanógrafos em procedimento de re-inclusão social cristã, haja vista serem os litígios mutuamente excludentes, e a interação dos trâmites penais poderia ocasionar icterícia ou sintomas similares aos da oxiurose; é assim como falsificar as próprias fezes e sonegar um depósito de rabada no paraíso fiscal da deficiência glútea, admirando contudo seu priapismo, tingido pelo sutil matiz outonal, mas ainda ostentar um quadro
de dependência toxicológica de comida tailandesa, a qual, recentemente, ganhou nova vida com a chegada do couro sintético – disse-nos tonitruando das nuvens outra vez, wanna c me sweat. Brittanyakabreesy 46 videos for free – ora, desligue as luzes querido. Apenas se me disser onde você estacionou o carro, repositório de esperma ambulante. E onde estão as tailandesas púberes? Não compramos duas?, era pequena boca dentada no pescoço da minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista.
Decretamos luto oficial de três dias para nossa raison d’être.


(Passagem do livro "Corpúsculo num plano - e como adquiri imunidade à varíola", já pronto. Traz contos variados, de 2001 a 2010. Em breve postarei aqui para download).

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia gordo, a broca e o píer



Dia gordo
(26/07/2010)


Nos quintais do subúrbio
o vazio crepuscular
espiralando,
envolve as flores;
esvai por hábito a tarde postiça.

Brilha a voz ensolarada dos grupos
em derrisão;
O corpo castrado encena dócil,
nos estabelecimentos comerciais,
seu movimento;
mimetiza humanidade.

Pétalas nas calçadas, não obstante;
comprimidas pela pressão,
quando costuma ser ouvida,
- pelo frio que apodrece as roupas
dentro do armário -,
fedendo a claustro, a voz
na loja de conveniência;
Hálito mau.
Fedendo à vileza pornográfica
da solidão, e a bolor de parede.
(Prateleiras de produtos
e a nota fiscal impressa).

À noite o céu é opaco
o existir cambaleia
com os fantasmas.
As alamedas estão cheias
de xoxotas inchadas
fragrantes.
Quisera viver iluminado,
acima da vida; como o nada
quisera, enfim, ser o vácuo.

O som tranquilo das árvores
do bairro
sob o vento gelado da noite;
dos postes zumbindo, quando passo;
distante rumor de máquinas.




O lugar mais luminoso
(14/02/2009)

No lugar mais claro,
fizeram a cidade.
Se martelos são ouvidos de manhã, batendo;
Se registros são guardados, à noite,
Os mudos se movem
- para alimentar as hienas.
1:45 da madrugada.
As cabeças miram a lâmpada
que queima moscas e cadastros;
emudece testemunhas.
Babam com anedotas
Agradecem à broca por mais uma cidade


Píer
(03/02/2009)

Os sinos estão tocando.
Estamos de partida.
Nos ancoradouros há rumor
Os obstetras e vigaristas vigiam, clinicamente;
Esses caminhos estarão interditados pela manhã.
Aos que perambulam sonolentos, perto das igrejas,
ainda não; voltem para a cama. São as circunstâncias;
Um olho atento,
ainda pode prosperar e respirar; operar, em certo sentido.
Conatural à perda, progressiva, funcional
está o restante (mas não pode ser sustentado).

Não obstante, sequestrados pela enseada, sob a luz póstuma do sol, difusa na neblina: é onde deitamos para atirar as crianças
às vagas. Que lhes aleite um falso redemoinho.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Impressões do interior às 6






Minha pressão está baixa quando acordo, de madrugada; sinto um leve enjôo. Engulo um pouco de sal na cozinha. Encontro na geladeira uma pizza de supermercado, ainda crua, e esquento um pedaço no microondas; faço tudo numa posição meio ridícula, semi-agachada. Ora, os doentes nada podem fazer, senão acolher o ridículo. O presunto está um pouco apodrecido, mas a pizza me revigora instantaneamente, e logo estou satisfeito por reaver minha normalidade, que ainda ontem me pesava. Fico um tempo sentado à mesa, vendo os restos de pizza no prato. A contemplação: a mais alta aspiração humana, segundo os antigos. Ouço risadas femininas lá fora, vindas da rua. Chegam atravessadas de uma baixeza familiar; ameaçadora, de certa forma. Que fazer, a antecipação da violência dos semelhantes é uma invariante: muros, portões, patrulhas noturnas; não há casa no bairro sem cerca eletrificada. Certamente, haveria formas menos ambíguas de expressar hospitalidade. O silêncio recai, exceto por distantes, oníricos rumores de motocicletas, parecendo orbitar uma zona remota. Tomo uma xícara de café, fico lendo um livro de Kant na sala; não que me interesse por filosofia, mas a aridez densa e gratuita do estilo do velho defunto cativa, preciso admitir. No fundo, era só um entertainer; a Abelhinha Diligente construindo seu castelinho de niilismo, repetindo que são tijolos concretos. Gostaria de vê-lo na banheira do Gugu. O livro logo enche o saco, e ligo a TV no mute. É reconfortante encontrar a programação triste, descolorida do horário: pastores, Abshaper, leilão de gado, Beyoncé, por aí vai. A cozinha está no escuro, e os móveis estalam. As frestas da casa exalam o ar gelado exterior. Tenho sorte de viver nessa época.
Quando acordo de madrugada, a solidão é, de modo geral, satisfatória. Os objetos são acolhedores; presenças humanas fragmentariam a bolha. Artrópodes são o grau máximo de complexidade tolerável. Além da simplicidade das coisas inorgânicas, como as paredes que nos defendem de outros como nós, o que acalma é se encontrar à parte do jogo da vida. Com toda a sua tendência à aglutinação hierárquica, estrutural, mesmo o jogo da humanidade apresenta falhas; lacunas esporádicas na rede ubíqua de conexões sociais, onde experimentamos existir fora da ebulição antrópica, em auto-suficiência. Você pode estar numa rodoviária, além do expediente normal; num clube deserto; no estacionamento de um drive-in; tarde da noite, numa estação entre São Paulo e Rio de Janeiro, insulada por pradarias sem fim. É como estar morto. A sensação é de certo alívio, deve-se admitir. Enfim, não é tão grave. O dia começa a amanhecer no interior.
Decido caminhar pelo bairro; aproveitar o sol da manhã no subúrbio. Vou andando pela praça defronte à minha casa. Acácias, vovôs e vovós fazendo cooper; nada de pichações, só nomes, emoticons e rituais pubescentes ancestrais talhados nos espaldares, a lápis ou a chave. A marca inconfundível do imperioso chamado das gônadas. Uma velha familiar vem correndo em minha direção, com legging e colant de malha justa. Mudo de caminho, em direção ao playground. Fico sentado num dos bancos, observando os brinquedos, depredados e descascando com a ferrugem; a doença dos playgrounds. A desorganização do mundo, penso, sempre penetrando nossa organização por trás. Contra a entropia universal não há supositório. A luz morna e reconfortante cai sobre os pinheiros, contrapostos ao céu, projetando silhuetas no muro do hospital – um Pronto Socorro que ladeia a praça. A brisa fria faz um contraponto agradável; nenhum conflito entre o calor e o frio. Vejo as arquibancadas de cimento, que circundam um campo de futebol – também concretado. Caminho até lá e, sentado, fico olhando o campo vazio. O sol reaquece a superfície plana, redimindo, lentamente, o frio acumulado à noite. Sinto vontade de descer os degraus e tocar o cimento. Copos descartáveis no gramado; resquícios de algo que acabou. No chão das cidades há sempre o fim de alguma coisa, nunca o começo. Um gemido angustiado vem do hospital – o verdadeiro circo. Um sujeito calvo me observa, ostentando uma bela pança esferóide, repleta de toxinas cardiopáticas; tem seus 50 anos, já bastante grisalho; faz alguns abdominais. Esticado, seu duodeno deve circundar a terra. “É”, digo, num volume audível, “também estou aqui fugindo da morte e decrepitude, vovô”. Doentes, disformes, miseráveis e decrépitos – são os verdadeiros clowns. Não que me sinta jovem; devo mesmo ser menos saudável que ele. Definitivamente, não me sinto saudável. Um sintoma, é claro, do excesso de informação: décadas de educação científica, leitura dominical sobre tumores, toxinas alimentares e prolongamento da juventude, de animações ilustrativas em 3D sobre processos degenerativos. Tememos uma morte dolorosa antes dos 35. Talvez câncer no cu, ou no pau; talvez fístula no cérebro ou melanoma. Temo, numa base diária, perder minha benga, ou meus testículos. Concluo que é melhor sair da praça, a zona dos leprosos; a rica fauna matinal de panças e bundas flácidas, menopáusicas e semicomatosas em babylooks, com ardentes detalhes colados, só pode instilar idéias mórbidas ao frescor do amanhecer. É mesmo terrível, quando a velhice chega em leggings. Deambulo pelas ruas intersticiais do bairro, cujas ramificações inelutavelmente convergem para a avenida arterial. As sombras das casas deitam sobre as alamedas de paralelepípedo; cobrem as calçadas frias, salpicadas de folhas, galhos e lixo. Quanto mais se adentra, quanto mais distante se está da avenida, mais obliterados, sujos, anacrônicos são os blocos. Pouco ou nenhum homo sapiens; o mundo parece ser seu, às vezes. Não que o exílio seja sustentável por muito tempo, mas nada é; o homem se vê, ao longo da vida, preso a uma série de arroubos e forçosas, subsequentes recaídas. O quadro geral é fatalmente burlesco. Paro em frente a um longo muro branco, que anela todo um quarteirão, e fico me aquecendo ao sol. Sem placas ou quaisquer indícios da natureza do lugar, observo. O mato brota desesperadamente, entre as pedras da calçada, vergando-a. Uma velha de uns 87 anos, num vestido cor-de-rosa, surge numa esquina torpe, dando para uma rua de barro com casas disformes, sem reboco ou pintura. Se apóia no muro, não sem verdadeira aflição. A gravidade é, para ela, imensamente hostil. Já a vi antes, por volta desse horário. Fauna típica. Olha para mim, com a expressão usual de confusão desolada dos mais velhos. Um animal vencido e inútil, mas ainda se aferroa à vida, como às paredes. Tanta degeneração tem um carisma patente, sem reservas; nos jovens, o carisma vem acompanhado de ressentimento e ódio tácito. Já a proximidade da morte é sempre simpática, ao tornar o homem socialmente inócuo; menos humano, de certa forma. Notadamente, nossa natureza misantrópica só ama com pureza aquilo que tende ao inumano, como Deus. Vejo, contraposta ao céu, a caixa d’água central despontar acima das casas e prédios baixos de construtoras, que parecem copular e proliferar da noite para o dia, com seus galpões vazios replicantes, como barrigas de barro seco, onde descansam vigas de concreto armado, carros de mão, cercas enroladas e caminhões arruinados. O céu brilha um azul límpido sem fim, como um convite. Caminho ao longo do muro, procurando alguma placa, até encontrar um portão de metal gradeado: “Loj. Maç. Josué Ferreira”. Lá dentro, um longo terraço vazio com uma piscina circular e palmeiras. Sugerem belas cenas de crianças se divertindo aos domingos. É quase possível ouvi-las; o som dos corpos pulando na água. Fico bastante tempo recostado ali. Uma putinha jovial, gordinha de uns 28 anos, vem andando em trajes esportivos, pela calçada onde me encontro; me vê espiar pelo portão. Não é atraente, mas pela adolescência deve ter angariado até bastante rola. Encontrando-se agora em processo de frenético abarangamento, vê-se constrangida a caminhar antes das 6, a hora dos enjeitados. Seu atual prazer em viver encontra-se, estimo, em evacuar. Talvez tema a mim, penso; uma figura estranha no bairro ainda vazio. Decido caminhar em sua direção. Encontrando meus olhos por um momento, ela – como se fosse parar – diminui o passo e, para disfarçar, continua. Mirando seu rosto, prossigo, até nos cruzarmos. Então, dou a volta e caminho na mesma direção. A pobre gordona, olhando para trás, vai acelerando gradualmente os passos; as ancas oscilam, gelatinosas, numa serenidade pendular. Imagino minhas mãos postas na banha gelada, sedenta de afeto. Deve julgar que merece ternura, prazer; mas o jogo não imita a estrutura das aspirações humanas. Ela, somos forçados a dizê-lo, não merece realmente qualquer ternura. A coisa continua por alguns minutos. Afinal, um sujeito franzino e estranho emerge numa esquina; o barangão passa a segui-lo, enxergando nele um lume de esperança; o símbolo mesmo da segurança civilizada. Ora, foi belo enquanto durou. Deixo-os e tomo uma rua estreita e depauperada, inconsistente com os blocos de classe média contíguos. Tenho a impressão de já ter estado nessa rua, uns 20 anos atrás. A carcaça completamente fodida, enferrujada e despedaçada de um Chevette jaz num canto da ruela de barro, provavelmente desde os 70. Um homem velho chapinha o esgoto e me percebo meio perdido. Um pássaro pegando sol num fio elétrico. Volto e vou andando a esmo entre os blocos. À medida que me entranho nesses quarteirões, o tempo fica cada vez mais fragmentário; partes dos 80 interceptam partes dos 90, dos 90 com os 70 etc. Tampas erodidas de Grapette, embalagens apagadas de 7 Belo; até uma de Chicletes Mini da ADAM’s; tudo banhado pela mesma luz branda, condolente, remissiva da manhã. Os dejetos da vida normal se espalham pelo chão, como um tipo de subconsciente da civilização, sugerindo conexões estranhas, características de sonho. Entre o capim, embalagens de Toddynho numa vala a céu aberto, lembrando crianças; longneck’s quebradas, provavelmente por playboys do subúrbio durante essa Copa; restos de gaze, garrafas de lubrificante de motor, um pedal de bicicleta, panfletos de imobiliárias e seitas, páginas de revistas. Há uma camada fossilizada, um mundo paleontológico de dejetos da infância no subsolo das cidades; nas ruas e quintais. Vou seguindo a caixa d’água como referência; sua efígie ergue-se acima do bairro como uma anomalia, um monstro de concreto.
Chego à avenida, e caminho em direção a um posto de gasolina; o cenário é um pouco mais aberto. Algum carro passa, aqui e ali, prenunciando a ebulição das 7:15. Me sinto desanimar; o mundo começa a se mostrar cansativo, com seus blocos empoeirados, suas pragas de pardais. Não há muito que se ver a partir daqui; a manhã perde, gradualmente, seu frescor. Paro no posto e fico sem idéias. Uma matilha de vira-latas descansa ao sol, após uma noite de violência e cópula. A inflorescência do setor terciário jaz latente, amontoada em cubos fuliginosos, aguardando a enxurrada de pessoas que não conseguem, sozinhas, subjugar o mundo externo – precisam daquela mãozinha para viver. Logotipos opacos, exibindo mascotes disformes, de uma euforia inexplicável. Um Corcel parado ao lado das bombas de combustível; o motorista conversa com o frentista. O primeiro me é familiar, da infância. Eram sempre os mesmos rostos nos clubes. Parece ter completado a evolução para o homem médio alcoólatra, como o indicam a pança e o boné de partidos locais. Nas cidades interioranas, ante o tédio tacanho e depressão subseqüente, o homem razoável não hesita: automedicação alcoólica. É um estilo de vida relativamente feliz, devemos admiti-lo, e os divórcios são mais raros onde não há clubes noturnos. Não registro muito do percurso para casa. Palmeiras, postes, pardais, câmeras de vigilância nos muros, fogueiras de São João apagadas. A vida começando a refluir.
Para ser honesto, estou um pouco enfadado, saturado das ninharias demandadas por uma vida normal. Algumas décadas bastam para tanto. Onde encontrar iniciativa para superar os pequenos percalços, as pequenas empreitadas requeridas pela vida? As dores de dente, os tumores de próstata; os riscos de amputação, ou de derrame, de seguir inutilizado e emasculado por décadas, tendo sua merda lavada pela sua mãe outra vez. O que fazer ao perder a carteira de identidade; onde encontrar sentido em renová-la, a força para ultrapassar pequenas odisséias burocráticas? É preciso algum heroísmo grego para isso. Não tenho dinheiro, percebo com nitidez a gratuidade de meus planos juvenis, e toda a extensão das minhas limitações. O que parecia ter importância inegável – eventuais ideais artísticos, filosóficos, talvez uma auto-imagem promissora – logo se mostra, com clareza indiscutível, insignificante e inútil. A quem ainda impressionamos, quando atingimos esse ponto da vida? Sou um homem medíocre, sem estratégias ou possibilidades. Não tenho pretextos, ou iniciativa, para mover os mecanismos necessários, com suas intermináveis engrenagens institucionais, emergindo das obsessões biológicas do mundo, como uma ostra hipertrofiada, que supura da carapaça.
Vejo um velho caipira numa carroça, entoando algo repetitivo, enquanto chicoteia um jumento. A carroça crepita sob o tranco dos paralelepípedos. Miro diretamente o sol; os olhos sentem a dor característica. Mais tarde, a luz será um jorro hostil vergastando os trópicos; destruindo e dizimando com radiação a vida – ou, para complicar, fazendo-a persistir. É particularmente incisivo no interior, onde, sem motivo aparente, fui um dia expelido do tabacão da minha mãe; e onde o céu é um pouco como uma mente amnésica; uma obliteração. Abaixo e à frente, estendem-se os mecanismos da natureza, com suas camadas pesadas, filigranadas e despropositadas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Evidenciando um mecanismo quaternário



A vida pode ser examinada conforme quatro categorias: o jogo, os interesses, o grau de organização e o valor da vida. (Estão, é claro, relacionadas).

O grau de organização diz respeito à compreensão, ou mais precisamente estetização, do mundo. A estetização pode ser do presente ou do futuro (a qual denominamos projeção), ou ambos.

Há dois tipos de jogo, o institucional e o natural (geralmente subsumido à atração), nunca separados. O jogo é então definido como a relação emergente entre ambos: por um lado, como emergência coletiva – histórica e geográfica – de instituições oficiais ou tácitas, motivadas bottom-top pelo jogo natural das turbas; por outro lado, como “submergência” coletiva de instituições no comportamento animal humano (os jogos naturais), motivando top-bottom o jogo da turba.

Os interesses são (i) pessoais ou sociais (critério qualitativo). Ambos os casos dividem-se, um a um, em (ii) entusiásticos ou coercivos (critério motivacional)*. O entusiasmo é proporcional à estetização, e maior na estetização do presente.

O interesse pessoal motivado por entusiasmo é aquele da infância.
O interesse social motivado por entusiasmo é aquele da adolescência.
Nos interesses sociais e pessoais motivados por coerção enquadram-se aqueles da vida adulta. A coerção é definida como o imperativo do jogo.

Assim, infância, adolescência e maturidade devem ser definidos em termos de interesse.

O valor da vida é proporcional ao entusiasmo (pessoal ou social) e à compreensão/ estetização. Neste último caso, é maior na estetização do presente, e menor na estetização do futuro.

Examinemos em minúcia a relação entre as categorias básicas acima, suas subcategorias e suas implicações.

Inicialmente, na infância, em virtude do entusiasmo natural e da ignorância respectiva ao mecanismo do jogo social, o interesse pessoal predomina, manifestando-se como um amor pelo mundo (entusiasmo).

Na adolescência, o instinto social – alimentado por necessidade de afeto e aceitação (isto é, por temor aos efeitos brutais do isolar-se da turba) – impulsiona o homem a um novo tipo de entusiasmo: o entusiasmo social, que se expande pelas novas situações surgidas das novas necessidades. O interesse pessoal é reinterpretado, passando a existir como um modo do interesse social; assim, como um tipo de interesse social.

Os dois casos acima – infância e adolescência – podem apresentar os graus máximos de estetização, ou compreensão, e portanto são incompatíveis com o jogo, cujas regras, embora passíveis de alguma sistematização – conquanto apenas vagos pontos familiares na névoa –, são existencialmente, ou humanamente, a-estéticas e incompreensíveis. Entretanto, o segundo modo de estetização, o da adolescência, é progressivamente menos relacionado ao presente, e mais relacionado à projeção de um futuro brilhante. Aqui, o entusiasmo já tende a diminuir com a inverossimilhança da estética ao presente.

Na maturidade, o entusiasmo pessoal e o entusiasmo social fenecem ante as proporções do jogo, tanto geográficas quanto históricas, tanto naturais quanto institucionais; tal dimensão, não menos que monstruosa, implica a prioridade colossal e inelutável do jogo, em prejuízo de qualquer pequeno entusiasmo, pessoal ou social. O interesse, portanto, passa a ser meramente coercivo, na idade adulta. A aceitação do jogo implica uma série de submissões a regras institucionais e naturais da turba, isto é, um distanciamento das motivações do entusiasmo pessoal e social (positivos), e o recrudescimento das motivações coercivas. O quadro geral se desdobra na forma de um espectro que vai do tédio às pequenas irritações e desapontamentos diários, decorrentes da ausência de interesse positivo, e do aumento de interesses negativos/coercivos. Tal quadro, de pequenos desapontamentos e pequenos desconfortos, é distribuído aleatoriamente, e não obedece à organização da natureza humana (estética), senão a uma ordem artificial (o “vazio”, ou a “morte”; o “inumano”). É claro, também o jogo subjacente a tal (digamos assim) “quadro a-estético de reações humanas ao vazio” é a-estético. Portanto, o quadro geral – que combina o jogo inumano e as reações humanas ao jogo – é incompreensível**. Donde que o valor da vida, medido em compreensão/estética e entusiasmo, tende ao zero.

Todavia, a continuidade da vida quase independe de seu valor, e o homem quase sempre persiste. Para tanto contribuem os resíduos de projeções adolescentes; a inércia ou momentum próprio da vida entre instituições e jogos naturais; a falsa impressão de estética ou organização de uma rotina artificial, que substitui porcamente a estética natural; e a própria constituição do homem, forjada para resistir a um ambiente atroz.

É verdade que, em épocas mais hostis, ainda se recorria ao bálsamo da organização mitológica do mundo, o que não é possível hoje; mas, conforme dito anteriormente, embora o homem não seja talhado para resistir à vida a-estética, pode encontrar substitutos, paliativos para esse vazio de organização; tal como pode encontrar paliativos para a ausência geral de entusiasmo ou humanidade.


* Faça-se notar que, no caso (ii), o interesse é divido conforme as motivações se apresentem positivas ou negativas. Note-se outrossim que os critérios motivacionais são de segunda ordem, isto é, são motivações de motivações; interesses do interesse.
** Parte da ininteligibilidade advém do paradoxo da inumanidade do jogo vis-à-vis humanidade dos jogadores. Tal se deve, em parte, ao paradoxo mais fundamental da coletividade e individualidade simultâneas no homem: a aparente ordem do jogo coletivo (i.e. institucional ou natural) é sempre inverossímil do ponto de vista individual**', e apenas faz sentido (ou seja, é estética) partindo de um referencial externo ao jogo - logo, um referencial inacessível ao homem. Pois este jamais está fora do jogo, senão muito parcialmente, uma vez que apresenta a natureza inescapável do jogo (dos interesses coletivos coercivos) imbricada nos genes. Assim, a aparência ordenada do jogo é forjada hipoteticamente, a partir desse referencial externo imaginário e artificial.
**' Essa ordem é inverossímil - e portanto a-estética - deste ponto de vista porque não condiz com os interesses/necessidades pessoais e sociais do indivíduo. Por exemplo, o interesse e necessidade de um satiríaco é foder sem parar todas as mulheres com as quais venha a tomar contato; a estética artificial do jogo, por seu turno, age em direção oposta a essa realidade individual, sendo desse modo inverossímil, nula de conteúdo; pouco mais que um construto formal. Há um senso geral de frustração, induzido pela heterogeneidade entre o mundo coletivo irreal e a realidade das necessidades humanas individuais (i.e. pessoais ou sociais); pela obrigação de viver a maturidade num mundo irreal.

terça-feira, 16 de março de 2010

Formigas histéricas



As formigas imaginárias – ou “formigas histéricas” – aparecem com maior renitência após as 2:14 da madrugada, às vezes transmutando em migalhas de alimento, outras desaparecendo no ar. Não é claro para onde vão, ou o que fazem, quando não há ninguém para vê-las; sua existência, tênue e vacilante como uma cintilação em águas inquietas, depende dessas almas acossadas; estatisticamente solteiros, de baixa renda e insones, propensos ao câncer e a distúrbios conjugais. A hostilidade das formigas histéricas a esse perfil humano é ainda de causa incerta.
Formigas histéricas não amanhecem mortas nos potes de mel, ou nos copos de suco, deixados lá no dia ou no mês anterior. Constituídas de devaneio e desatenção, são ontologicamente mais rarefeitas que o vácuo. Não caminham a esmo na ponta do dedo de alguém.
Essa espécie de artrópode compartilha a natureza das pequenas irritações e obstáculos diários, os quais, ao longo dos anos, se acumulam na forma de um ressentimento inconfessável, que a tudo absorve. Nos casos mais recidivos, o acossado pode considerar oportuno o serviço de um dedetizador histérico.
Esses também devem ser acessados por um lapso de juízo. Pessoas cujo contato com formigas histéricas e dedetizadores histéricos é prolongado, eventualmente passam a levar uma vida histérica, com esposas histéricas, carros histéricos, empregos histéricos, filhos histéricos, taxas histéricas. Se tornam pessoas histéricas, mais tênues que o vácuo. Em nada diferentes de formigas histéricas.
Convertidos em formigas histéricas, sua existência também se direcionará ao prover de pequenos importunos a outros indivíduos. Talvez, solteiros de baixa renda com câncer.

quinta-feira, 11 de março de 2010

;D











Shitty paint cut ups or what.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Fragmentos

Trechos de coisas que vinha escrevendo em 2009, na surdina. Nos meus sonhos autorais mais tórridos, criariam uma expectativa:

“Cristina dorme ao meu lado, na cama; deve sonhar com fragmentos do dia, flutuando na correnteza de instintos básicos. É uma esposa; que improvável. Olho para ela, satisfeito com esse fato. É mesmo um animal sobre meus lençóis, eu realmente sou parte do esquema da natureza, com suas interações entre bestas. Às vezes, me surpreende que eu seja capaz de tanto. Capaz, enfim, de realizar e experimentar fatos naturais biológicos. O corpo está imóvel na penumbra, vulnerável, nessa posição de dormir que deve ser a mesma desde a infância. Toco a bunda quente, escorregando a mão por dentro da calcinha. Os pêlos e o período fértil; as mamas e as glândulas. Sua buceta parece tão infantil, exalando calor e odor como uma confidência de fragilidade, necessidade de comunhão; sinto um desapontamento indeterminado, a intuição de um engodo. Sempre se resumiu a um exercício de futilidade, digo a mim mesmo. Enfim, outra impressão transitória, na verdade inócua. Fico ouvindo a respiração de Cristina, cujos dedos antes envolviam meu cacete; o som de buzinas e sapos pela janela, bosta sentimental tocando à distância. O que ocorre agora na cabeça dela? Medo da perda? Medo de uma alteridade hostil? Luxúria, propensões hierárquicas? O zumbido plano, de tremor constante do ventilador no canto do quarto. Nada de sono, vou acabar procurando seriados na TV a cabo. Encaixo a nádega direita de Cristina dentro da minha mão. Seria agradável desaparecer, abandonar e apagar as conexões intricadas que formam a malha da vida. A felicidade aponta para a simplificação; câncer de testículo é um excesso de complexidade. Eis o problema com tudo isso, nada mais complexo que Tetris poderia ser tolerável.”



*



“Enquanto saio, o fluxo verborréico persiste, ecoando pelas paredes brancas do banheiro. As ondas de som se sobrepõem, quicando no plástico dos calefadores, nas lâmpadas fosforescentes; embaralhando e abafando o sentido das palavras, até que soam homogeneamente vácuas. Um fluxo de signos infame e vazio, irritante, preechendo a atmosfera com um senso de decepção e baixeza. Análogo ao monóxido de carbono, espalhando devagar entre paredes de um avião. Gostaria de poder gritar alguma coisa ofensiva, batendo sua cabeça no mármore escuro, repetidamente. Pedacinhos de encéfalo espargiriam no piso reluzente. Creio que não seria mau pisar neles, misturando e desmanchando as conexões sinápticas; formando papinhas.”



*



De um livro que não terminei de escrever:

“Uma vez confundidos com elefantes (porque não existe diferença visível entre eles e nós), teríamos um fim trágico – são devorados ainda vivos. Mesmo que sob o efeito anestésico da dor, que os deixa indiferentes ou até vagamente felizes; os sorrisos na sopa indicam. A noite era a terra dos caçadores, dizia-se, das silhuetas bêbadas e suas putas; falavam alto e riam, espalhados ao redor de um velho Chevete, que estacionavam num bar sob um poste de luz; você ouvia o zumbido da caixa de fiação fazendo buracos espiralados no ar gelado, cheio de umidade. Nós saímos andando na penumbra do fim de tarde, que escurecia a areia, ainda morna entre os dedos do pé, os grãos encravando nas unhas; avançávamos sem falar muito. Conhecidos quase sempre nos inspiravam um desinteresse natural; começamos a nos reconhecer neles. Os gêmeos sandálias tomaram o percurso de suas respectivas casas, onde fantasiariam com colos e úberes de fêmeas anônimas, dispostas a oferecer imundície doce, que entretanto não torna menos desértica a areia, pacientemente mastigada, e eu prossegui com Belinda até ela deitar na estrada e dormir, sobre a estrada de barro. Muitas vezes tentei convencê-la a deixar de fazer isso, em vistas dos caçadores e dos estupradores, mas sabia ser inútil. Belinda só podia dormir ali, entre pedras e entre besouros, que sondavam a área com olhos escuros em busca de esterco quente, recém-processado; sonhariam com cus, ou não sonhariam nada. Alguns se aninhavam nas pernas dela, ou na superfície da buceta, entre a pelugem escura, protegidos pelo calor de um dormitório temporário. Sugavam o sangue em silêncio, sem lembrar as casas que abandonaram; suas barrigas enchiam, como algoritmos.”



“A etologia dos trens está crescendo rápido em nós, eu dizia; um dia viveremos numa sociedade de trens, com preocupações de trens, sonhos de trens e idéias de trens; assim será um dia luminoso, mas o medo de que nos descubram sob esse disfarce pode nos consumir rápido; não pense nisso agora. (...) Esses gritos atávicos dos velhos embates, precipitados em cascalho quente; é diretamente constatável e uma questão de natureza: as tribos (nossas tribos) transmutam em cascalho quente, como o movimento transmuta em calor; não há um inimigo, trata-se de ficção. A carne dos familiares pode ser repartida, os legistas rosnam e se atracam, como se posicionados ex machina, sem indicar um alvo passível de julgamento. Sim, penduramos a carne para secar no varal; registrada se for o interesse público. A maior parte não precisa ser (registrada) – e afinal, o que é carne? E o que é carne registrada? Certamente carne, mas pendure seus papéis no açougue; uma sensação morna de condolência anônima possibilita a sobrevivência. Encalhadas em nossas cabeças secas, seguindo um código; o bife balança seco no varal – estamos famintos e contamos anedotas.”



“O movimento é reencenado pelo resto da noite, os sonhos banhados na areia da costa entre as ostras. As águas-vivas e os moluscos, lentamente arrastados com eles.”



“Há pacientes sentados no hospital-creche, logo em frente; são de modo geral feios, desbotados, de expressão submissa. É o perfil dos acometidos por doenças humilhantes, penso, como câncer no cu, elefantíase escrotal etc. Ao longo da história do homem, muitos morreram de enfermidades semelhantes; é quase possível ouvir suas vozes, o coro das almas torturadas pela infecção urinária, vindo do passado, como um murmúrio, um burburinho”.

Seen and not seen

He would see faces in movies, on T.V., in magazines, and in books....
He thought that some of these faces might be right for him....And
through the years, by keeping an ideal facial structure fixed in his
mind....Or somewhere in the back of his mind...
That he might, by
force of will, cause his face to approach those of his ideal....The
change would be very subtle....It might take ten years or so....
Gradually his face would change its' shape....A more hooked nose...
Wider, thinner lips....Beady eyes....A larger forehead.

He imagined that this was an ability he shared with most other
people....They had also molded their faces according to some
ideal....Maybe they imagined that their new face would better
suit their personality....Or maybe they imagined that their
personality would be forced to change to fit the new appear-
ance....This is why first impressions are often correct...
Although some people might have made mistakes....They may have
arrived at an appearance that bears no relationship to them....
They may have picked an ideal appearance based on some childish
whim, or momentary impulse....Some may have gotten half-way
there, and then changed their minds.

He wonders if he too might have made a similar mistake.

(D. Byrne)